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sábado, 15 de junho de 2013

Esquizofrênico registra em livro a experiência de enlouquecer

Ex-aluno de física e de filosofia da USP, Jorge Cândido de Assis carrega no corpo das marcas da esquizofrenia. Aos 21, durante uma crise, ele se jogou contra um trem do metrô e perdeu uma perna.
Hoje, aos 49 anos, cinco crises psicóticas, ele dá aulas sobre estigma em um curso de psiquiatria e acaba de lançar um livro no qual descreve a experiência de enlouquecer. "Entre a Razão e a Ilusão" (Artmed Editora) foi escrito em parceria com o psiquiatra Rodrigo Bressan e com a terapeuta Cecilia Cruz Villares, da Unifesp.

Leia o depoimento dele:

"Tive uma infância tranquila, jogando bola na rua. Aos 14 anos, entrei na escola técnica e já sabia trabalhar com eletricidade. Adorava física.
Em 1982, prestei vestibular para física na USP e não passei. Em 1983, fiz cursinho, prestei de novo e não passei.
Consegui uma bolsa no cursinho, passei perto e não entrei de novo. Foi um ano depressivo para mim. Eram os primeiros sinais da esquizofrenia, mas eu não sabia.
Eu me isolei, tinha delírios. O desfecho foi trágico. Numa manhã de domingo, entrei na estação do metrô Liberdade. Escutei uma voz: "Por que você não se mata?". Me joguei na frente do trem.
Acordei três dias depois no hospital sem a minha perna direita. Tinha 21 anos.
Foi bem sofrido, mas coloquei toda minha energia e determinação na reabilitação. Quatro meses depois, já estava com a prótese.
Sozinho, voltei a estudar para o vestibular e passei em física e fisioterapia na Universidade Federal de São Carlos. Meu sonho era desenvolver uma prótese melhor e mais barata do que as versões que existiam naquela época.
























Um dia, em 1987, cheguei em casa e ela havia sido arrombada. Tive que ir até a delegacia dar queixa e reconhecer os objetos furtados.
Isso desencadeou a segunda crise psicótica. Tinha delírios de grandeza, alucinação, mania de perseguição.
Fui internado em Itapira durante um mês. Saí de lá com diagnóstico de esquizofrenia, medicado mas sem encaminhamento. Um dos remédios causava enrijecimento da musculatura e eu não conseguia escrever. Então parei de tomar a medicação e comecei a fazer tratamento em centro espírita.
Voltei a estudar em São Carlos. Depois da crise, perdi muitos amigos por puro estigma. Comecei a trabalhar, paralelamente aos estudos, mas ficou pesado demais. Preferi desistir do curso.
Em 1993, prestei vestibular na USP e passei. Foi mágico, a realização de um sonho. Continuei trabalhando, mas cheguei num ponto de saturação e desisti do curso.
Minha vida foi perdendo o sentido, vivia por viver. Me sentia vazio de emoções.
Nesse período, fazia parte de um grupo de pesquisa na USP. Mas, por uma série de divergências, o grupo se desfez. Ao mesmo tempo, meu namoro acabou. Esses dois fatores desencadearam minha terceira crise.
Foi uma crise também com delírios, alucinações, isolamento. Fiquei um mês internado. Foi aí que comecei a me tratar de esquizofrenia de fato. Além das medicações, fazia psicoterapia, terapia ocupacional e prestei vestibular para filosofia na USP. Passei. Sentia-me tão bem que disse: "Superei a esquizofrenia. Vou parar com os remédios".
Minha mãe morreu em 2002 e, em seguida, tive a minha quarta crise, que também foi controlada com remédios. É como começar do zero.
Entre 2003 e 2007, participei de um grupo de pacientes com esquizofrenia em que discutíamos a doença, as vivências, as formas de comunicação. Em 2005, o [psiquiatra] Rodrigo Bressan me convidou para participar das aulas dele contando a minha experiência pessoal, sobre o estigma. Em 2007, surgiu o projeto do livro sobre direitos de pacientes com esquizofrenia.
Foi um processo de criação intenso durante 18 meses. Em 2008, o Rodrigo me convidou para deixar de ser paciente e entrar para a equipe dele. Foi uma grande oportunidade.
No início do ano passado, fui palestrar em Londres sobre o nosso trabalho. Quando estava voltando, fizemos uma escala em Madri.
Sentia muita dor na perna e pedi uma cadeira de rodas. Esperei e nada.
Tirei a perna mecânica, coloquei na bolsa e fui pulando até a sala de embarque. Todo esse estresse me levou à quinta crise. Ela foi rapidamente controlada, mas é um processo difícil retomar a rotina anterior, ressignificar as coisas para que a vida faça sentido.
Depois das crises, tenho que renascer das cinzas. Muitas pessoas desistem. Precisa de uma grande dose de esforço para reconstruir a vida.
A medicação ajuda, mas não é garantia. Consigo lidar com as demandas da vida, mas nunca sei se o que sinto é ou não da doença.
Não ouço mais vozes, mas tenho autorreferência. Penso que tudo ao meu redor tem a ver comigo. Se ouço um barulhinho lá fora, acho que pode ter câmera escondida.
Se as pessoas estão conversando no corredor, acho que estão falando sobre mim.
O delírio é inquestionável, você acredita nele. Mas tenho clareza do que é autorreferência, deixo para lá.
Tenho que saber os meus limites. O referencial para a gente é o mundo exterior, a relação das pessoas.
Muitas vezes, o início das crises não é percebido. Por isso é importante dividir com o médico, com a família.
O estigma também é muito prejudicial. Ser apontado como o louco ou ser desacreditado só piora. A esquizofrenia é uma doença crônica, que afeta as emoções, os relacionamentos, as vontades.
Tenho sorte de ter uma família unida, que me apoia. Isso dá sentido à minha vida.
Olho para trás e confesso que me sinto frustrado por ter começado duas vezes física, em duas das melhores universidades, e não ter concluído.
Mas fico feliz com o trabalho de poder ajudar outras pessoas com a minha história. As pessoas sofrem no Brasil pela falta de locais para a troca de informações.
Minha meta agora é construir uma rede de associações de apoio a pacientes com esquizofrenia.
Eu não sou só a doença, e a doença não me define.
Tenho que lidar com a esquizofrenia, mas ela não é a parte mais fundamental da minha vida."

Fonte: CLÁUDIA COLLUCCI - Folha de São Paulo

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Estudo promete revelar mistérios da mente adolescente

A impulsividade dos adolescentes pode estar ligada a características do seu cérebro que mudam com a idade?
Para responder a essa pergunta, a Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha, está começando a realizar um amplo estudo no qual serão monitorados os cérebros de 300 indivíduos com idades entre 14 e 24 anos.















A pesquisa deve custar 5 milhões de libras (R$ 15 milhões) e tem como objetivo de entender como o cérebro dos adolescentes muda conforme eles envelhecem e se a tendência a agir de forma menos impulsiva com a idade pode estar relacionada a essas mudanças.
Além disso, os coordenadores do estudo também esperam que ele lance luz sobre as causas do surgimento de transtornos mentais em jovens adultos.
Para Ed Bullmore, professor de psiquiatria da Universidade de Cambridge, é provável que, com o tempo, mudanças no cérebro dos adolescentes lhes ajudem a começar a controlar suas emoções e reações mais facilmente.
"Exames de ressonância magnética nos permitirão obter boas imagens de como a anatomia do cérebro muda ao longo do desenvolvimento do indivíduo", disse Bullmore à BBC. "Estamos particularmente interessados em entender quais são as alterações no tecido da parte central do cérebro, conhecido como massa branca."

Estrutura do cérebro

Para o psiquiatra, os exames devem mostrar que essa massa branca sofre alterações em resposta a mudanças hormonais - e são tais alterações que favorecem o autocontrole dos indivíduos.
Numa tentativa de testar essa hipótese, os 300 jovens e adolescentes serão submetidos a situações em que será avaliada sua propensão a adotar comportamentos impulsivos e tomar riscos em diferentes etapas de sua vida.
Simultaneamente, eles também passarão por exames que analisam a estrutura de seu cérebro.
"Todos nós já fomos jovens e sabemos que esse é um momento difícil e confuso da vida", diz Becky Inkster, também da Universidade de Cambridge.
Entre os primeiros a passarem pelos exames de ressonância magnética está Samantha, de 16 anos, que segundo sua mãe, Kim, teria constantes mudanças de humor.
"Se alguma coisa a perturba na escola, ela pode estar muito mal-humorada quando chega em casa. Mas isso não dura muito tempo", diz Kim.
"Notei minhas mudanças de humor recentemente. Às vezes estou feliz e às vezes mal-humorada e irritada", comenta a menina. "Eu me sentia muito culpada por causa dessas mudanças. Mas agora que sei que isso é o que acontece (com adolescentes), já não me sinto tão mal."
Para Bullmore, uma das conclusões da pesquisa pode ser que o cérebro dos adolescentes favorece processos de tomada de decisão motivados por considerações de curto prazo e "estados emocionais imediatos".
A pergunta que muitos pais de adolescentes devem estar se fazendo nesse ponto é: É possível apressar as mudanças cerebrais para acelerar o amadurecimento dos filhos?
Bullmore acha que sim. "Se pudermos entender o que está mudando no cérebro desses adolescentes do ponto de vista físico e mental, poderemos no futuro planejar intervenções para apoiar ou acelerar um amadurecimento na forma como as pessoas pensam", diz ele.
"Poderíamos tentar desenvolver, por exemplo, jogos de computador ou outros programas de treinamento que ajudem os adolescentes a desenvolverem suas habilidades cognitivas mais rapidamente."

Doenças mentais

Com o estudo, os pesquisadores também esperam entender como alguns transtornos mentais se desenvolvem.
No final da adolescência e início da idade adulta existe um elevado risco de desenvolvimento de doenças psicóticas, tais como esquizofrenia e distúrbios bipolares.
Na realidade, muitos dos transtornos psiquiátricos consideradas problemas da vida adulta começam a aparecer no final da adolescência e examinando as ressonâncias magnéticas dos voluntários, a equipe de Bullmore espera descobrir se na raiz dessas condições estão anormalidades no desenvolvimento do cérebro.
Segundo o médico, a ideia é entender, por exemplo, "como uma esquizofrenia que surge em um paciente de 19 ou 20 anos poderia estar relacionada a problemas no desenvolvimento do cérebro desse indivíduo".
Para ele, tal tipo de compreensão ajudaria no desenvolvimento de tratamentos melhores para diversos transtornos.
"Com esse conhecimento podemos abandonar a ideia de que as doenças mentais em pessoas jovens são sobretudo um problema moral ou um desastre aleatório", diz Bullmore.


Pallab Ghosh
Repórter de ciência da BBC News

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